O modelo econômico ‘extrair, transformar, descartar’ da atualidade está atingindo seus limites físicos.

A Economia Circular é uma alternativa atraente que busca redefinir a noção de crescimento, com foco em benefícios para toda a sociedade. Isto envolve dissociar a atividade econômica do consumo de recursos finitos, e eliminar resíduos do sistema por princípio. Apoiada por uma transição para fontes de energia renovável, o modelo circular constrói capital econômico, natural e social. Ele se baseia em três princípios:

  • Eliminar resíduos e poluição por princípio
  • Manter produtos e materiais em ciclos de uso
  • Regenerar sistemas naturais

Atualmente, quando os produtos são descartados em aterros ou incinerados, as matérias-primas originais são efetivamente “perdidas”, pois não possuímos um protocolo para separá las novamente.

Esse resultado denominamos de Economia Linear, no qual os recursos da Terra estão gradualmente sendo usados ​​à medida que produzimos, consumimos e descartamos mercadorias a uma taxa cada vez mais rápida até que os recursos necessários sejam esgotados, ou seja, um modelo de mundo insustentável.

Mesmo os esforços mais intensos de reciclagem estão longe de atingir uma boa marca, pois apenas uma fração pequena dos produtos são reciclados. Em muitas estimativas, apenas 20% são reciclados, mesmo assim são reduzidos em materiais ou produtos de menor qualidade e funcionalidade.

Para entendermos melhor vamos falar sobre dois tipos de produtos, que exemplificam a causa raiz desse problema.

Um é o produto com “obsolescência planejada“, que é quando os fabricantes limitam artificialmente a vida útil de um produto, pois mais curto do que o real, tornando-o de menor qualidade e impraticável ou caro de reparar, de modo que os consumidores são forçados a comprar um novo com mais frequência, bons exemplos são lâmpadas, impressoras e eletrodomésticos.

O outro é um produto “rapidamente inovado“, onde os novos modelos são introduzidos com muita frequência, por exemplo, telefones celulares, computadores e TVs.

Essa matriz de produtos que os clientes são atraídos a comprar continuamente o mais novo modelo com os recursos mais recentes, durante alguns anos, são os tipos de produtos que levam ao desperdício.

A solução para esse cenário do desperdício, é uma transformação completa do modelo econômico, para o que é conhecido como Economia Circular. Onde os produtos são projetados primeiramente para que possam ser desmontados com facilidade e segurança e ofereçam a possibilidade de reciclagem e reaproveitamento de 100% do conteúdo material em novos produtos, quando eles não são mais necessários.

É importante notar que a reciclagem não reduz a qualidade dos materiais, mas mantém a qualidade original, permitindo assim o “upcycling” em oposição ao “downcycling” mencionado na Economia Linear. Também é importante notar que tanto a extração de recursos quanto os resíduos do modelo linear não existem.

O modelo circular, faz uma distinção entre ciclos técnicos e biológicos. O consumo se dá apenas nos ciclos biológicos, onde alimentos e outros materiais de base biológica como algodão e madeira, são projetados para retornar ao sistema através de processos como compostagem e digestão anaeróbica. Esses ciclos vão regenerar os sistemas vivos, tais como o solo, que por sua vez proporcionam recursos renováveis para a economia.

Ciclos técnicos recuperam e restauram produtos, componentes e materiais através de estratégias como reuso, reparo, remanufatura ou em última instância reciclagem.

O modelo de Economia Circular sintetiza uma série de importantes escolas de pensamento, incluindo a economia de performance de Walter Stahel; a filosofia de design Cradle to Cradle de William McDonough e Michael Braungart; a ideia de biomimética articulada por Janine Benyus; a economia industrial de Reid Lifset e Thomas Graedel; o capitalismo natural de Amory Lovins, Hunter Lovins e Paul Hawkens; e a abordagem blue economy como descrita por Gunter Pauli.

No entanto, projetar, desenvolver e produzir produtos para serem 100% compatíveis com a Economia Circular, hoje em dia seria e é muito caro.

Então uma boa alternativa neste momento é o conceito de Produto como Serviço (PaaS), introduzir esse formato ajudaria mudar a relação entre o produtor e o consumidor.

Para melhor explicar isso um bom exemplo é fornecido por Thomas Rau da Turntoo. Simplificando e parafraseando, para iluminar sua casa ou seu escritório, vamos supor que em vez de comprar lâmpadas, você compre iluminação (luz / lâmpada) como serviço.

Como isso funcionaria? Partindo do princípio que você só está interessado em iluminação / luz, e pagaria pelo o resultado, ou seja, a quantidade e qualidade de luz para as horas que você precisa. Assim, você paga por horas de luz como você paga por quilowatt-horas quando compra energia de uma empresa de serviços de eletricidade.

O fornecedor é responsável por fornecer isso, de qualquer maneira que escolher. Portanto, se a luz for fornecida por lâmpadas, o fornecedor é responsável pela instalação, manutenção, reparo e eventual remoção no final do contrato de serviço.

O fornecedor é responsável pelo custo da eletricidade, porque você contratou luz, e se a eletricidade é necessária, esse é o problema do fornecedor.

Todo o tempo, o fornecedor retém a propriedade das lâmpadas (materiais), e quando elas são devolvidas ao fornecedor, os mesmos são responsáveis ​​pela desmontagem e recuperação das matérias-primas para reutilização ou remanufatura em produtos futuros.

Neste cenário o fornecedor é incentivado a projetar produtos para serem muito confiáveis para minimizar os custos de manutenção e também para serem energeticamente eficientes, fácil de instalar, usar o mínimo de matéria-prima e finalmente fácil de desmontar para reciclagem e recuperação de todos os materiais originais porque eles estão suportando todos os custos relacionados.

Não há custos externalizados, especialmente custos ambientais. Além disso, o consumidor desfruta do uso de um produto de alta qualidade, que eles provavelmente nunca comprariam.

Modelos de Economia Circular não são simplesmente hipotéticos, mas muitos projetos de sucesso foram implementados no mundo real, aplicados à iluminação, grandes eletrodomésticos como máquinas de lavar e refrigeradores, fones de ouvido, móveis, tapetes, edifícios, equipamentos de ressonância magnética, automóveis, motores a jato e até roupas.

O fato da Economia Circular (PaaS)  ter se mostrado economicamente viável em um produto de baixo custo, lâmpadas, mostra que ela pode ser viável em uma gama muito ampla de produtos porque, geralmente, quanto maior o custo do produto, mais sentido ela faz .

Vamos pensar que nós não herdamos a terra de nossos ancestrais mas sim estamos pegando emprestado de nossos filhos.

Então um modelo de Economia Circular não é apenas possível, mas também benéfica e necessária para um futuro planeta sustentável.

Mas a Economia Circular exige uma transformação completa da forma como abordamos não apenas o uso de produtos, mas, principalmente, o design, a reciclagem e a reutilização.

Ainda mais importante, requer uma mudança em nossa mentalidade, pois temos que respeitar todos os materiais que vieram da Terra como tendo valor mesmo depois que o produto em que ele pode estar tenha servido sua vida útil. Numa Economia Circular, como na natureza, o desperdício não existe.

Então podemos acreditar que Blockchain, muitas vezes apontado como a chave para melhorar a confiança, a transparência em todos os setores e que proporciona sistemas mais justos e colaborativos. Pode então Blockchain desempenhar um papel muito importante nos modelos de Economia Circular (PaaS), permitindo contratação eficiente, pagamento e rastreamento de providência do “produto”.

Pois é fácil encontrar centenas de tipos de produtos que usam sensores, controles ou displays eletrônicos adicionados, que podem ser “medidos para uso”, de modo que podemos simplesmente pagar pelo uso.

Esta é uma aplicação perfeitamente natural para a capacidade de microtransação de sistemas Blockchain.

Além disso, a explosão da tecnologia IoT, onde bilhões de “coisas” no futuro estarão conectadas em tempo real para monitoramento e controle, será natural pagar pelo uso. Assim o baixo custo de transação e as microtransações Blockchain são realmente uma necessidade importante para tornar o modelo de PaaS viável para muitos “produtos”.

Nesse sentido, no futuro, podemos imaginar que a mineração por criptomoeda irá ironicamente substituir a mineração convencional por metais e elementos da Terra, uma vez que a transição para a Economia Circular esteja completa.

Para habilitar tais aplicações no futuro, é óbvio que as plataformas Blockchain precisam expandir massivamente para lidar com os volumes de produtos e transações que são previstos neste novo paradigma.

Blockchain pode se encaixar na cadeia de suprimentos, e atuar na rastreabilidade, segurança, fraude e exploração de mão-de-obra.

Assim oferecer aos operadores de resíduos uma variedade de serviços tecnológicos que apoiem as suas atividades respeitando o meio ambiente e a comunidade, de acordo com os princípios da sustentabilidade e da Economia Circular, é com certeza o passo para uma nova fronteira tecnológica inovadora.

Estamos nos estágios iniciais de um novo capítulo na natureza do trabalho, pois Blockchain nos permitirá fazer o nosso trabalho e ser recompensado dentro de novas Economias Circulares que possuem suas próprias unidades monetárias e suas próprias unidades de trabalho.

Vamos falar melhor sobre a participação de Blockchain na implantação da Economia Circular, para entender o que está acontecendo aqui:

  1. Os usuários realizam algum trabalho, seja passivo (utilizando bike para ir ao trabalho e compartilhando dados) ou ativo (depositando latas em uma coletora de latas de alumínio ou utilizando embalagens de papel e não embalagens de plástico).
  2. Cada mercado tem sua própria ‘unidade de trabalho’, consistindo em uma variedade de atividades.
  3. Cada unidade de trabalho gera valor para o mercado, para outros usuários e para o próprio usuário final. Esta é uma expansão da teoria do efeito de rede onde as ações de cada usuário beneficiam outros usuários.
  4. Em troca desse valor, os usuários são recompensados ​​com uma moeda de token nativa, a própria moeda do mercado.
  5. Essa moeda pode ser gasta dentro do mercado em outra transação ou serviço (por exemplo, viagens, cursos online, outros) ou pode ser trocada fora do mercado contra outra moeda criptografada ou dinheiro fiduciário.
  6. O valor do mercado como um todo aumenta proporcionalmente com a quantidade de atividade e valor que são gerados dentro dele.

Desta maneira com a utilização de Blockchain conseguimos incentivar a troca de paradigma entre os dias de hoje onde reina a Economia Linear por dias melhores e mais sustentáveis em uma Economia Circular.