No jornal The Guardian, o pai da internet Vint Cerf se perguntou quando a televisão terá seu momento iPod – ou seja, quando baixar vídeos se tornará mais comum do que sentar-se para assistir a um programa transmitido pela TV.
Então a televisão enfrentará a convulsão à qual a música mal sobreviveu.
Também nestas páginas, o editor Alan Rusbridger especulou sobre o momento iPod dos jornais, que, segundo ele, chegará com o surgimento de “um dispositivo relativamente adequado ao mercado de massa no qual ler um jornal (e assisti-lo e ouvi-lo) parecerá bastante normal”.
Ou como disse Scott Adams, cartunista do Dilbert, num blog: “Quando temos um navegador de internet no bolso, um jornal impresso torna-se redundante.”
Bem, acredito que o momento iPod está aí.
Ele chegou com o último iPod e seu derivado, o iPhone.
A Apple perdeu uma grande oportunidade ao lançar primeiro o iPhone, em junho, e só depois, em setembro, o iPod Touch, idêntico, mas sem telefone.
Se a Apple tivesse lançado o iPod Touch primeiro, teríamos percebido que ele é realmente um computador completo com conectividade Wi-Fi, um navegador de internet capaz de baixar e exibir – e também capturar e compartilhar – todo tipo de mídia: texto, fotos, áudio, vídeo, interatividade.
E o iPhone não teria “engolido” o iPod Touch.
Esses novos dispositivos representam a próxima geração do computador: pequeno, enxuto, poderoso, portátil.
Tudo o que o computador, a internet e o navegador fizeram pelo conteúdo – permitindo que ele se tornasse infinito, mas pessoal; instantâneo, mas permanente; irrestrito pelo meio, por oferecer todas as mídias; e enriquecido pelo diálogo – agora está na palma de sua mão.
Tudo o que você pode fazer na internet também pode fazer no iPhone, em qualquer lugar e qualquer hora.
Durante décadas, observei grupos de pesquisa da indústria dos jornais – os pouquíssimos que existem – tentando inventar o próximo meio de veiculação da notícia.
Isso normalmente assume a forma mítica do e-paper, fino e portátil como uma folha de papel e capaz de exibir jornais como jornais – algo bem no estilo Harry Potter.
Também vi muitos jornais e revistas tentando usar a penosa tecnologia PDF para exibir suas páginas na tela exatamente como ficam no papel.
Por quê? Ego, imagino, além de comodismo e medo da mudança.
Creio que tudo isso segue na direção errada: para trás.
São tentativas de adaptar a tecnologia à velha mídia.
O que deveríamos fazer é adaptar a mídia à nova tecnologia.
Deveríamos perguntar o que podemos fazer de inédito neste novo iPhone.
Infelizmente, não tenho um iPhone.
Meu filho tem, comprado com os lucros dos aplicativos que ele criou para o Facebook.
De vez em quando, ele me deixa brincar com o aparelho.
E o mais importante é que costumo observar enquanto ele o usa.
O que vejo é bastante simples e óbvio: ele está na internet.
Pois isso é simplesmente um navegador, sempre conectado.
Se tudo o que o iPod faz é cortar os fios que aprisionavam o navegador, nosso primeiro momento iPod completa 13 anos neste mês: foi o lançamento do primeiro navegador comercial.
E os desafios que enfrentamos desde então são os mesmos que enfrentamos agora, só que mais urgentes: como usar esse dispositivo maravilhoso para fornecer às pessoas as notícias e links na hora, no lugar e do jeito que elas desejarem?
Como fazer isso com incrível eficiência?
Como tornar isso local e relevante?
Como aproveitar a relação de duas mãos que agora temos, permitindo que os donos dessas engenhocas compartilhem o que sabem?
Finalmente, eis o que todos realmente querem dizer quando falam do momento iPod: como ganhar dinheiro com isso?

Por Jeff Jarvis – The Guardian (Tradução: O Estado de S.Paulo)

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